Precisamos de um novo modelo…
Em tempos remotos, a humanidade (ou seja, nós) lidava com os horrores de uma existência inexplicável em um mundo inclemente e implacável através da criação de deuses e espíritos, que então eram adorados com medo e devoção incondicionais. Nós nos curvávamos reverentemente diante deles, considerando-os a fonte de todas as coisas, boas e más, que nos aconteciam. Buscávamos meios de apaziguar estas forças obscuras e incompreensíveis, para nos proteger de seus movimentos inescrutáveis no mundo, através de sacrifícios; através da intervenção de feiticeiros, ritos e rituais supersticiosos; e através da submissão abjeta ao que imaginávamos ser a sua vontade.
E então, há mais ou menos 2.500 anos, começamos a nos libertar desta confusão obscura, e surgiu em nós a idéia de que a verdade de todas as coisas só pode ser encontrada dentro de nós mesmos. Esta virada deu origem a todas as religiões e práticas espirituais não animistas ainda vigentes no mundo de hoje. Na Índia, os Vedas, os Upanishads, e os ensinamentos de vedanta, dvaita e advaita surgiram todos a partir desta idéia nova e surpreendente: Deus está dentro de nós; a verdade está dentro de nós; a liberação do sofrimento e da confusão está dentro de nós; a Realidade absoluta está dentro de nós.
O Buda surgiu entre nós no início desta virada e nos incitou, nesta aventura, a confiar primeiro e acima de tudo em nossa inteligência e bom senso naturais. Ele nos disse para não acreditar em nada, nem mesmo em suas palavras, se elas não estivessem de acordo com o que pudéssemos ver e compreender por nós mesmos. Mas nós não prestamos atenção a ele e preferimos, como sempre, buscar outra pessoa em quem acreditar; outro alguém a quem implorar pela verdade; outra pessoa para nos conceder o objeto de todos os nossos desejos e o fim de toda a nossa confusão. E o modelo que criamos em substituição ao modelo antigo foi o mesmo modelo antigo: gurus inescrutáveis, instrutores cuja sabedoria ultrapassa a nossa capacidade de compreensão e mestres místicos transcendentais tomaram o lugar dos deuses antigos, espíritos e forças ocultas.
Ainda hoje, no Ocidente secular e mundano, assim como no Oriente supersticioso, honramos este modelo. Buscamos gurus, mestres e pregadores, seres espirituais de todos os tipos, esperando receber deles dádivas, realizações e favores especiais em função de nossa devoção e mérito. Nós, os discípulos, os devotos, os suplicantes, sentamos aos pés de nossos mestres ansiando de todo coração pela transmissão de alguma energia ou estado que nos despertará do transe da ignorância e nos atirará em um estado que transcenderá a consciência normal e dispersará (ou melhor, destruirá) a mente; uma transmissão que exterminará o ego e o pensamento-ego e criará dentro de nós uma nova realidade, vazia e pura, na qual todas as coisas serão vistas claramente e a paz, a liberdade e o amor reinarão livres e desimpedidos.
Ou então buscamos mestres que nos darão práticas, técnicas e interpretações ocultas que dissiparão a neblina dos impulsos neuróticos, emoções negativas, respostas impróprias a estímulos e todas as formas de auto-traição, na crença de que a verdade está bloqueada e oculta aos nossos olhos por causa destes hábitos mentais; e que se ao menos conseguíssemos encontrar um momento de verdadeira clareza, a verdade venceria de uma vez por todas e brilharia com uma força tal que dissolveria a fumaça espessa e quente de auto-ilusão e auto-envolvimento estúpido que caracterizam todos os nossos pensamentos e desejos. Se ao menos a mente pudesse ser consertada, transformada em algo claro e verdadeiro, aí então tudo ficaria bem.
Este modelo já existe há aproximadamente 2.500 anos e ele não tem funcionado muito bem. Se tivesse funcionado, não haveria agora menos ódio, violência e crueldade entre nós? Não haveria a estas alturas uma grande maioria de seres iluminados irradiando sabedoria e paz por toda a humanidade? Será que ainda teríamos que responder a estas perguntas com referências misteriosas a sábios ocultos aos nossos olhos, ou recorrendo a perversões da percepção intuitiva de que tudo está bem exatamente como está? Já se passaram 2.500 anos e nós ainda escutamos dizer que a realização é apenas para poucos. Como isso é possível? De que maneira isto se coaduna com a insistência do Buda em que confiássemos em nossa própria inteligência inata? Isto lhe parece razoável?
Nós precisamos desesperadamente de um novo modelo; um modelo que se origine da percepção clara de que o próprio âmago, o cerne mais profundo e radical do que é possível aqui é a simples percepção intuitiva de que somos realmente o que buscamos, e que a única causa de toda e qualquer confusão e sofrimento é uma falsa crença acerca do que somos; e a única solução para este problema é a verdade, que é a realidade, sempre presente e evidente, do nosso ser. Precisamos de um modelo que reconheça que, embora certamente existam aqueles nos quais a mentira da falsa identidade foi eliminada e que talvez possam ser de alguma utilidade para aqueles de nós que ainda somos prisioneiros desta mentira, o único mestre verdadeiro é aquele que sabe que é um servidor e não o senhor. Precisamos de um novo modelo no qual possamos confiar em nossa própria inteligência e discernimento para separar o joio do trigo.
24/11/06 às 14:08
Sempre Obrigado
27/11/06 às 10:28
eu acredito que não precisamos de um novo modelo…assim, continuaremos no redemoinho… pare, e o redemoinho se desfaz…
muito obrigado…obrigado…obrigado…
om shanti shanti shantiiii…
jayin
28/12/06 às 13:28
Caro John, o que você chama de “novo modelo” parece ser um meio de trazer a mensagem da Luz para os que estão nas trevas, sem que criem uma hierarquia onde eles estão no chão, e os mensageiros estão no alto - sendo então considerados seres superiores, autoridades espirituais, mestres, gurus, etc.
Bem, não sei, isso não parece fácil. Quem está nas trevas procura paz, sabedoria ou iluminação, imaginando que os gurus lhes poderão dar tais coisas, o que cria automaticamente uma “hierarquia espiritual”.
O verdadeiro sábio, porém, diz aos buscadores que essas coisas não existem, e sim a falsa identificação do Ser com a torrente de pensamentos e sentimentos, memórias, enredos, expectativas e significados — e é exatamente isso o que o seu testemunho exprime com tanta clareza.
13/05/07 às 7:49
O modelo já temos, basta a coragem para adentrar em tudo isso!
A coragem para deixar de ser quem pensamos que somos ,para vivermos o que realmente somos!
É ir para dentro de nós mesmos e viver isso!