Eu quero usar este espaço para discutir com você a simples e perfeita auto-investigação de Ramana Maharshi.
Vamos começar do começo, sem saber nada a não ser que estamos aqui, como seres humanos, e que parece haver algo fundamentalmente errado na vida como um ser humano: ela deveria ser melhor, mais fácil e mais agradável do que é.
Quero convencer você a experimentar este método, porque tenho certeza de que se você o experimentar, ele vai naturalmente energizar a sua vida interior e, por fim, acabará com a ilusão de sofrimento pessoal na qual, de alguma maneira, percebemos nossas vidas como promessas não cumpridas; as sensações de vida que vão e vêm em nossos corpos como objetos de medo, luxúria ou aversão; nossas mentes como temíveis e obscuras selvas de confusão; nossos amigos, vizinhos e familiares como inimigos; e este doce, doce mundo como um acampamento hostil.
Para iniciar a auto-investigação, você não precisa abandonar nada do que está fazendo agora, ou tentando não fazer. A auto-investigação também não requer que você decida se é contra ou a favor de qualquer prática espiritual, pois a auto-investigação de Ramana Maharshi não é de modo algum uma prática espiritual no sentido que normalmente atribuímos a este termo. A auto-investigação não é afetada por nada disso; ela passa ao largo de toda e qualquer atividade mental e espiritual e faz seu trabalho em silêncio.
Então o que é auto-investigação? Qual é a sua utilidade? Quando busco entender a mim mesmo, me transformar, transcender a mim mesmo, entrar em sintonia com o meu ser verdadeiro, etc., não estou fazendo auto-investigação? Não é verdade que qualquer prática espiritual que busque a unidade é uma forma de auto-investigação? O “Quem sou eu?” não é coisa para iniciantes?
Não, na verdade, a auto-investigação não é nada disso.
A auto-investigação, atma vichara em sânscrito, existe há muito, muito tempo, há mais de 2.500 anos. Em tempos remotos, a auto-investigação consistia em um conjunto de práticas sagradas, meditações e austeridades cujo objetivo era libertar o ilimitado e eterno Ser Verdadeiro da armadilha das ilusões de samsara nas quais o Ser Verdadeiro se encontra aprisionado pela mente condicionada. Todos os pensamentos, sentimentos e desejos comuns tinham que ser eliminados à força, se é que havia a menor esperança de se poder abrir caminho através da neblina de condicionamento, impulsos subconscientes (vasanas) e conseqüências cármicas que nos mantinham para sempre do lado de fora, sem acesso à realidade esplendorosa do nosso Ser Verdadeiro. Este ponto-de-vista segundo o qual existe um Ser Verdadeiro que precisa ser liberado, um Ser Verdadeiro no qual eu preciso me transformar, e pelo qual eu preciso transcender o meu ego e a minha vida cotidiana ainda é imensamente prevalente em círculos espirituais modernos e, em minha opinião, causam grande dano a todos que se deixam seduzir por ele.
A auto-investigação de Ramana Maharshi também não é nada disso. Ela é muito menos e muito mais simples do que tudo isso. Para Ramana, não existe um “Ser Verdadeiro” do qual você está separado; existe somente você, exatamente como você é.
Para Ramana, a necessidade de auto-investigação é óbvia e universal e ela surge naturalmente quando nos damos conta de que a única causa de todo o sofrimento humano é uma falsa crença acerca do que nós somos. Ou, em outras palavras, a causa de todo o meu sofrimento é uma falsa crença em relação ao que eu sou.
Reflita comigo um momento. Mesmo que você já tenha escutado isto antes; mesmo se você estiver completamente familiarizado com esta afirmação e concorde com ela ou discorde dela completamente, pare um instante e considere-a como se a estivesse vendo pela primeira vez, como se ela significasse exatamente o que diz. Não é possível receber o ensinamento que Ramana tem para nos oferecer sem antes realmente compreender que este insight profundo e poderoso é o terreno no qual ele que se fundamenta e do qual se sustenta.
Se é verdade que a causa de todo o meu sofrimento é uma falsa crença sobre o que eu sou, a única coisa que realmente importa é saber a verdade acerca do que eu sou. E saber a verdade forçosamente me libertará de qualquer idéia falsa sobre o que eu sou. Nada mais pode fazer isso. A busca da verdade da minha natureza é auto-investigação.
Isso não pode ser difícil, não é? Afinal de contas, eu estou sempre aqui. Eu estou sempre, completamente, disponível para mim mesmo. Nenhum desenvolvimento espiritual especial é necessário para entender isto. Com certeza, eu posso, sempre que quiser, olhar para mim mesmo. Eu posso saborear, por um momento, a sensação de existir. A auto-investigação de Ramana não é nada mais do que olhar diretamente para mim e saborear a sensação de mim mesmo.
Eis a promessa: se você parar um momento, sempre que puder, sempre que se lembrar, e voltar a sua atenção consciente para esta experiência nua e crua de existir (que é tudo que você é), seu sofrimento imediatamente começará a diminuir e a fumaça quente e espessa de falsidade, confusão, dúvida e medo que encobre a mente começará a se dissipar. E, nas próprias palavras de Ramana, tudo vai dar certo no final.
Na verdade, este exame, esta auto-investigação não é um caminho nem um método para se alcançar a Realização; ela é a Realização, e cada momento que você passa com a sua atenção repousando na experiência de existir é passado em total e consciente realização da Realidade.
E se você continuar com esta prática e torná-la parte de sua vida, toda a falsidade finalmente desaparecerá e o que sempre esteve aqui, a paz, a naturalidade e o amor incondicional serão revelados, completa e permanentemente, de uma vez por todas.
Este é o começo e o fim do ensinamento da auto-investigação segundo Ramana Maharshi:
* Não existe nenhum problema em lugar algum, além de uma falsa crença acerca do que você é.
* A única solução para este problema é saber conscientemente a verdade sobre o que você é, e esta verdade infalivelmente porá um fim em toda a experiência de tormento em sua vida e a projeção deste tormento nos outros.
* Não é preciso entender o que você falsamente acredita ser e, na verdade, isso é impossível.
* Esta falsa crença é inteiramente inconsciente e não pode ser vista.
* Não se trata de escolher uma coisa em vez de outra: de acreditar, por exemplo, que eu sou Consciência em vez de ego; trata-se de uma limitação. Na verdade, nós somos (você é, eu sou) tudo que existe. Eu sou a totalidade dos fenômenos que surgem e desaparecem espontaneamente dentro de mim, sou o campo no qual eles existem. Não existe nada separado de mim. A falsidade reside inteiramente no ato medroso de limitar, de esculpir uma posição defensável no interior desta realidade ilimitada e chamá-la eu.
* Não há absolutamente nada que você possa fazer, nenhuma prática que possa iniciar, interromper ou aperfeiçoar, que lhe será de qualquer ajuda no objetivo de livrar-se desta falsa crença, a não ser ver diretamente por si mesmo a verdade, neste momento, repetidamente.
* Tudo o que você sabe, tudo o que pode saber, é que você está aqui. Tudo o mais são histórias e conjecturas. A auto-investigação, ou o esforço para ver a verdade do que você é agora, é portanto nada mais do que voltar a atenção, deliberada e conscientemente, para esta simples consciência de sua presença aqui, com o único objetivo de vê-la diretamente, por si mesmo.
* Não há nenhum entendimento, nenhum ensinamento e nenhum mestre que possam lhe dar você ou lhe mostrar o que você é. Você tem que fazer isto por si mesmo. O máximo que um mestre pode fazer é lhe oferecer encorajamento e instruções práticas, a partir de sua própria experiência.
A auto-investigação de Ramana é inacreditavelmente simples e, justamente por ser tão simples, vai ser necessário algum tempo e um esforço cuidadoso para verdadeiramente receber a sua transmissão essencial. Nós temos todo o tempo do mundo para considerar tudo isso, conforme for necessário. Se quiser, me escreva.
Da próxima vez, escreverei sobre a minha história pessoal, e minha experiência com o método de Ramana e sobre como a descoberta da realidade imutável mudou para sempre a minha vida.
7/10/06 às 15:04
COLOCO AQUI O QUE PENSO QUE ENTENDI: A APREENSÃO DA REALIDADE SE DÁ PELO FOCO PERMANENTE NO FATO DE ME SENTIR EXISTINDO.
ISTO SIGNIFICA QUE OS DITOS “ESTADOS DE ESPÍRITO” SÃO O QUE DIZEM: ESTADOS, PASSAGEIROS POR DEFINIÇÃO. PASSAM PELO CAMPO QUE SOU EU. ME ATRAVESSAM, PORTANTO.
QUALQUER OSCILAÇÃO EMOCIONAL SÓ FAZ PARTE DOS FENÔMENOS DESSE CAMPO.
ENTRETANTO O “PROBLEMA” AQUI É A IDENTIFICAÇÃO COM TAIS FENÔMENOS… ME PARECE QUE O TEMPO SERVE APENAS PRA ISSO: TREINO PERMANENTE PRA VOLTAR À PRESENÇA DE SI.
OBRIGADA PELA CONTRIBUIÇÃO À LEMBRANÇA DE MIM.
DARLEY